Elson Cascão II conta suas aventuras no sertão
Em 2001, quando a Kandangus Rally Team cruzou a primeira linha de chegada do Rally Internacional dos Sertões, não imaginávamos que iríamos tão longe. Longe, quer seja no sentido de completar os 5 mil km da prova durante 15 dias, quer seja no tempo em que estamos na estrada, disputando todos os anos, sem interrupção, a segunda maior prova off road do mundo. No último dia 20 de agosto, completamos os 4 mil km na nossa 11ª participação na prova. Durante oito anos, meu navegador era Geraldo Malvar, meu amigo de infância e companheiro inseparável. Agora, divido meu cockpit com aquele que nos últimos quatro anos foi meu chefe de equipe, meu xará Elson Menezes.
Cada rally tem suas particularidades. Nenhuma prova é igual a outra. Esse ano, como sempre, o Rally se mostrou um desafio duríssimo e tanto organizadores quanto participantes são unânimes em afirmar que 2011 foi a prova mais dura de todos os 19 anos de Sertões. Dentro do carro, no meio da poeira, a realidade sempre é mais dura do que aquela que o espírito aventureiro dos "ralizeiros" imagina. As surpresas estão espalhadas por todo o caminho, e a adaptação e improviso fazem parte da mais preparada das equipes.
O carro que desenvolvemos nos últimos três anos, um Sherpa V2 com 300cv de potência, correspondeu às nossas expectativas. Isso não quer dizer que a prova transcorreu sem percalços. Logo no segundo dia, os dois amortecedores traseiros do lado esquerdo falharam, e quase nos tiraram da prova. Nosso navegador/mecânico, o Menezes (Magaiver), não se deu por vencido: cortou uma tora de madeira que, amarrada no lugar dos amortecedores, permitiu que continuássemos rodando por 30 km para alcançar o apoio mecânico, no final da etapa. Mesmo penalizados por não terminar o percurso dentro do prazo máximo previsto, continuamos a disputar o Rally, agora com um desafio bem maior para vencer. Fizemos uma prova de recuperação, sem desanimar por causa dos problemas enfrentados logo no começo do percurso.
Terminamos a prova em 6º lugar na categoria Protótipos, um de nossos melhores resultados até hoje. Foram mais de 4 mil quilômetros de muita poeira até a chegada em Fortaleza. Completar essa jornada compensa todo o esforço de preparação e as agruras do percurso. É mais do que participar de uma corrida: o Rally Internacional dos Sertões nos coloca frente a frente com nossos próprios limites, sejam eles materiais, físicos ou psicológicos. É por isso que é tão gratificante participar e "sobreviver" a uma prova que demanda tanto dos carros e das equipes.
Ao final da competição sempre me perguntam se essa terá sido nossa última participação no Rally Internacional dos Sertões, afinal já são onze anos seguidos completando uma das provas mais difíceis do mundo. O fato é que quem pega a "febre da poeira" raramente consegue se livrar dela. Depois de alguns dias de descanso já começamos a rever tudo o que deu certo e o que falhou, para, posteriormente, aperfeiçoar os materiais e os procedimentos para a próxima edição do Rally.
Elson Cascão II – empresário brasiliense e piloto de Rally
Foto: Murillo Mattos