Complexo de arte contemporânea e jardins tropicais chama atenção do mundo inteiro
Já diria o outro que a vida não se resume a consumo, mas que beleza é bom e eu gosto. E beleza no seu estado mais orgânico é algo a se reverenciar, admirar e simplesmente agradecer.
Em uma época em que se valoriza a experiência de luxo como um momento de realização, faz sentido buscar paraísos ecológicos e resorts all inclusive. Um dos destinos brasileiros mais interessantes do momento é o Instituto Inhotim, localizado no município de Brumadinho, a uma hora de viagem de Belo Horizonte.
Idealizado pelo milionário Bernardo Paz, o parque ecológico é um mix de jardim botânico com museu de arte contemporânea. Para quem é ligado em natureza, vale saber que o Inhotim abriga a maior coleção de palmeiras do mundo com mais de 1500 espécies; já os apreciadores de arte e design vão se deleitar com o acervo que abrange pintura, escultura, desenho, fotografia, vídeo e instalações espalhados em galerias ou ar livre.
A curadoria de arte, cheia de boas sacadas com misturas interessantes entre o que emociona o brasileiro e o mundo cosmopolita, fica a cargo do trio formado por Allan Schwartzman, Jochen Volz e Rodrigo Moura. Tunga, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Vik Muniz e Adriana Varejão são alguns dos 97 artistas, entre nacionais e internacionais, com obras no Inhotim.
O complexo de arte e verde compreende treze galerias dedicadas a obras permanentes e quatro espaços expositores que abrigam mostras temporárias de longa duração: a Fonte, Lago, Mata e Praça.
Em conversa com o GPS|Brasília, o Diretor de Comunicação do Inhotim, Ronald Sclavi contou que para este ano, precisamente dia 6 de setembro, já está confirmada a inauguração de um pavilhão de dois mil metros quadrados para Tunga; e outra galeria que receberá o trabalho Tteia, de Lygia Pape. "A renovação do acervo é muito importante para manter o interesse do visitante", diz o diretor.
Nossa visita se deu em um sábado de maio. Um carro alugado no Aeroporto de Confins serviu para a locomoção até Brumadinho. Após caminhar um bocado pelo parque, visitar várias galerias e almoçar no restaurante Tamboril, encontramos Ronald Sclavi.
"A relação das obras com o espaço fazem da visita à Inhotim uma experiência singular, especial e que deixa uma marca positiva na grande maioria dos visitantes. A pessoa que vem aqui procura uma experiência rica que transforma pela beleza. Um lugar que busca reproduzir o ideal do homem pós contemporâneo, que quer resgatar a criatividade", diz. "Como muitas obras estão expostas ao ar livre, em meio ao jardim, escondidas na mata ou sobre um lago, o visitante não se sente oprimido pela arte, o que se vê é justamente o oposto. A pessoa busca explorar Inhotim e interagir", completa Ronald.
Há quem diga que Bernardo Paz investiu mais de R$ 500 milhões no projeto. Ele não toca no assunto e nem seus diretores. A realidade é que Inhotim teve de 2010 para 2011 um crescimento de 40% no público. "O Bernardo é um idealista e sempre comenta que o instituto é um local que desarma um pouco as pessoas. Concordo com ele nesse ponto e acho que a beleza dessa atração é um tapa na cara", enfatiza.
História
O Instituto Inhotim foi idealizado pelo empresário na década de 1980. Em 1984, o local recebeu a visita do paisagista Roberto Burle Marx, que apresentou algumas sugestões e se encantou com o local.
Bernardo Paz lembra que numa conversa com Tunga, o artista deu o toque ao amigo: "Esquece o modernismo, porque a verdade está na arte contemporânea". O empresário construiu um primeiro pavilhão para abrigar a obra True Rouge, de Tunga, e não parou desde então. O envolvimento com as artes ficou ainda mais intenso após o casamento com a artista plástica Adriana Varejão. Com o fim do relacionamento, Paz se voltou para o complexo e agora busca construir hoteis, flats, centro de convenções e pousadas no entorno do parque.
Ao redor de Inhotim vive uma série de comunidades, incluindo cinco grupos quilombolas formados por descendentes de ex-escravos alforriados. É dessa mistura que se origina o nome do museu ao ar livre.
"Antigamente, nas terras onde hoje está localizado o Inhotim, morava um senhor chamado Tim. Quando alguém se dirigia à fazenda do Sr. Tim, como um bom mineiro dizia: Vô lá no nhô Tim. Assim, a região ficou conhecida como Inhotim. Essa é a versão mais conhecida da origem da palavra", explica Ronald.
Destaques
A galeria Adriana Varejão é imperdível. Com três pavimentos, o primeiro piso guarda a obra Linda do Rosário; ao subir as escadas, o visitante se depara com um salão totalmente revestido com o que parece ser azulejos gigantes decorados com imagens de deuses, querubins e ondas. Um craquelado deixa evidente que o tempo corroi o material exposto. É a Celecanto Provoca Maremoto e tudo não passa de uma ilusão. As referências da artista são o período barroco e a azulejaria portuguesa. Os "azulejões" são placas de gesso pintadas com óleo e o efeito craquelado foi produzido por Varejão. Por fim, um terraço a seu aberto lembra um mirante. Lá o turista pode contemplar toda a vegetação do Inhotim e se encantar com os azulejos pintados com centenas de pássaros brasileiros.
A obra batizada de Beam Drop Inhotim, de Chris Burden, contempla 71 vigas de construção jogadas por um guindaste do alto de 45 metros em uma vala de cimento fresco durante 12 horas. A maneira como as vigas se fixaram cria um interessante movimento.
O Som da Terra, ou Sonic Pavilion idealizado por Doug Aitken fica no ponto mais alto do parque ecológico. Sem saber se o pavilhão circular saiu das profundezas da terra ou caiu do espaço, o visitante encontra uma sala vazia com um cano de 200 metros metros enterrado na terra. Microfones de alta sensibilidade instalados no buraco conseguem captar os sons lá de baixo. Impressionante.
Outro espaço de visitação é a Estufa Equatorial, localizada no Viveiro Educador. É neste local que está sendo cultivada a famosa Flor Cadaver, conhecida por reproduzir o cheiro de carne podre. A exótica espécie floresceu, pela primeira vez na América Latina, em Inhotim. O fenômeno, que chamou a atenção do mundo inteiro, demorou uma década para acontecer e durou apenas três dias.
Os bancos, feitos com árvores gigantes que caem por efeitos da natureza ou troncos semi-queimados, são assinados por Hugo França e têm status de obra de arte.
É importante saber que:
A entrada de animais domésticos não é permitida;
O ideal é visitar Inhotim em um fim de semana completo. Vá cedo e se prepare para passar por estradinhas complicadas típicas do interior;
Não é possível a entrada de bicicletas, skates ou patins;
Às terças-feiras a entrada é gratuita;
Os carrinhos que fazem os percursos entre uma atração e outra são pagos, mas valem a pena se o passeio integra crianças e idosos. Os veículos têm capacidade máxima de cinco pessoas.
Fotos: Sarah Campo Dall`Orto
Imagens do interior das galerias: Divulgação/Inhotim
Ao caminhar pelo parque, o visitante se depara com série de galerias
Labirinto colorido de Helio Oiticica: criado em 1977 e batizado de Magic Square
O Inhotim é o maior jardim botânico do Brasil e possui mais de 4.500 espécies de plantas
O paisagismo teve influência inicial de Burle Marx e é de tirar o fôlego
Cinco lagos ornamentais estão espalhados pelos 3,5 hectares de área total
Cadeiras e mesas equilibradas dão vida à instalação Inmensa, de Cildo Meireles
O Tamboril é parada obrigatória para o almoço, mas há também o Bar do Ganso e o restaurante Oiticica
As estátuas de bronze representam a figura masculina para Edgard de Souza
No ponto mais alto do parque, o intrigante Sonic Pavilion de Doug Aitken
Instalação assinada por Marepe se inspira nas dificuldades do Recôncavo Baiano
Em 2004 o parque abriu as portas à rede de ensino, mas o grande público só conheceu Inhotim em 2008
Detalhes do paisagismo atual são de curadoria de Pedro Nehring. A botânica é de Marco Otavio Pivari
Origem do Inhotim: True Rouge, de Tunga. Redes, vidro soprado, tinta vermelha, cristal, esponjas
Vik Muniz se faz presente com sua série chamada The Sarzedo Drawings
Beam Drop Inhotim: 71 vigas de construção jogadas do alto de 45 metros em uma vala de cimento fresco
Cerith Wyn Evans se apropriou de letra de Caetano Veloso e criou estrutura em madeira e fotografia
O parque conta com batalhão de jardineiros. Diariamente, 150 trabalham na área e deixam tudo lindo
O Tamboril, espécie centenária
Recantos onde se pode comprar souvenirs de Inhotim: os livros de paisagismo são incríveis
Em frente a galeria de Adriana Varejão, a obra Panacea Phantastica: serigrafia sobre azulejo
No 1º piso da galeria de Adriana Varejão: Linda do Rosário, óleo sobre alumínio e poliuretano
O 2º andar da galeria de Adriana Varejão recebe toda a obra Celacanto Provoca Maremoto
Pura beleza orgânica: um destino que reúne arte, silêncio, conhecimento e natureza